ALBUM REVIEW: Kyary Pamyu Pamyu – Nanda Collection

Bem, já que eu já fiz reviews de álbuns do ano passado aqui no Asian Mixtape e havia gente pedindo pra eu comentar o Nanda Collection, eu pensei bem e… por que não? Não é como se houvesse muita coisa recente pra se comentar no lugar, né? Então cá vamos nós. \o/

“Nanda Korekushon”, a romanização do hiragana visto em “Nanda Collection”, é um trocadilho com “coleção” e “Nanda Kore?”, a expressão japonesa para “O que é isso?!“. Uma tradução apropriada para o título do álbum, portanto, seria “MAS QUE PORRA É ESSA COLEÇÃO?”, que é exatamente a reação que pessoas não familiarizadas com Kyary terão ao ouvir esse álbum. 

Nanda Collection não é o tipo de álbum pra todo mundo, e o time de Pamyu Pamyu está ciente disso. Apreciar a música e os MVs dela pelo que são pode ser complicado e não há nada de errado nisso, mas Kyary é o tipo de pessoa que precisa ser respeitada como artista você querendo ou não. Sim, vocês leram direito. Eu estou defendendo uma louca com um alcance vocal bem limitado e que mal sabe dançar. Ainda assim, ela merece muito mais crédito como artista do que sua favorita. E eu explicarei por que rapidamente, usando como exemplo um ato com quem Kyary costuma ser comparada frequentemente pela mídia ocidental: Lady Gaga (vide aquela reportagem recente d’O Globo).

Num primeiro momento, comparar Lady Gaga e Pamyu Pamyu parece algo válido. Gaga se veste de frigorífico, Pamyu de árvore de Natal. Gaga de Caco dos Muppets, Kyary enfia um tubarão no cabelo. Ambas tem a intenção de estimular seus sentidos e causar algum tipo de estranhamento. Até aí, a comparação é válida. Entretanto, essa psicodelia dos figurinos de Gaga não se transpassa para sua música. Ela diz que passa, mas sejamos honestos: isso não é lá muito verdade. Vejam por exemplo o release de ARTPOP dizendo que o álbum apresentaria uma reversão do que havia sido feito por Andy Warhol: ao invés de infundir o pop na arte, Gaga levaria a arte para dentro do pop. Não sei pra vocês, mas eu ouvi o ARTPOP e isso aí passou longe de rolar naquele álbum, que se tratava de pop chiclete básico (nada contra pop chiclete básico, acho ótimo, tenho até amigos que são).

 Kyary entretanto leva seu dadaísmo visual para suas músicas, sua figura como um todo é coesa, tudo se conecta suavemente, enquanto que com Gaga suas patetices são apenas ~~smoke and mirrors (malzaew, little monsters. Não me matem, eu curto umas músicas dela até). Portanto, se fosse para comparar Kyary com algum ato ocidental, teria provavelmente de ser com Björk, igualmente what the fuck tanto em imagem quanto em composições.

Esse pequeno desvio feito, gostaria apenas de analisar outro aspecto que faz de Kyary uma artista de facto, você querendo ou não: a imagem dela não é fabricada, pois Pamyu Pamyu não é uma idol propriamente dita. Antes mesmo de ter um contrato com a Warner, ela já estava desfilando por Harajuku mostrando para todos quão hot mess ela consegue ser. Pamyu cresceu nessa cena e faz parte dela, não sendo fruto da visão de algum engravatado de gravadora (mais uma vez, nada contra, acho ótimo, senão nem ouviria k-pop). Como ela mesma disse naquele clusterfuck em que Minami Minegishi raspou o cabelo por ter dado a pimba pro namorado, se algum engravatado espera fazer 600 zilhões de ienes com ela vendendo sexo pra homens sem trato social, não vai rolar:

E não há como se dizer que ela está enganada, porque o tipo de kawaii de Pamyu é diferente do de, digamos, AKB48 ou animes slice of life com colegiais descobrindo o amor. O kawaii de Kyary é tão açucarado, é tão doce e colorido que se torna outra coisa. É algo que passa da medida e descamba para o caos, até mesmo para o maldoso. O que quero dizer é que KPP é basicamente o que aconteceria se um quadro de Takashi Murakami ganhasse vida.

(abra o quadro em outra aba. vale a pena)

Kyary mistura o kawaii e o grotesco, o tradicional e o moderno, o ocidental e o oriental, diferentes estilos e expressões, todos ao mesmo tempo, numa explosão de nonsense que te deixa atordoado. E Yasutaka Nakata, o produtor do álbum, está ciente disso. Ele compreende do que Kyary se trata e produz para ela faixas que casam com essa imagem.

Desde Nanda Collection, a intro do álbum, você já está ciente da merda que está por vir. Afinal, uma intro que mistura gaitas de fole com uma marcha imperial japonesa tem tudo pra dar errado, mas não dá. E é esse o espírito de todo o álbum. Você se sente inquieto e apreensivo, tentando prever quando ocorrerá uma mudança inesperada no tempo, ou quando ocorrerá um break bizarro. E eles ocorrem frequentemente. Peguem como exemplo Ninja Re Bang Bang, que vem a seguir. A faixa parece saída da trilha sonora de Ninja Gaiden pra SNES, mas com muito mais wtf.

Por sua vez, Kimi Ni 100 Percent, que havia sido single num double A-side com Furisodeshon, é tão direta e açucarada que parece quase uma pegadinha. Você passa a faixa inteira receoso do momento em que ela dará uma guinada inesperada, mas esse momento nunca chega. Logo em seguida temos um cover de Super Scooter Happy, do capsule. É outra faixa straightforward que te engana e de maneira alguma te prepara para o que virá a seguir, Invader Invader.

A força da produção de Nakata aparece principalmente aqui. Invader Invader mistura guitarras, sintetizadores e cria uma aura que honestamente parece um híbrido bizarro de punk com dance, até que DO NADA aparece a porra de um break que mistura metal e dubstep de maneira tão insana que é quase impossível descrever. Depois dessa, outro highlight, Mi, em que os tambores imperiais que parecem saídos de séculos atrás se mesclam com um synthpop viciante e o que parece a trilha sonora da Millenium Fair de Chrono Trigger, tudo enquanto uma louca grita MIMIMIMIMIMI sem parar por cima de tudo. Droga ilícita alguma chega perto.

Fashion Monster é outra faixa que começa como um pop chiclete básico, só que com déficit de atenção. Mas com o decorrer do tempo, tudo degringola e fica tão grandioso e psicodélico que não resta nada a não ser tirar o chapéu pro Nakata. Dont nobody nos últimos anos chegou perto dessa trinca de faixas. Saigo No Ice Cream, empalidece sonicamente comparada às faixas anteriores, mas ainda tem seus méritos (como negar o mérito de uma música que parece o meio termo entre um tema de tokusatsu e a trilha sonora de um side scroller de arcade?).

Temos depois as duas músicas usadas com propósito comercial do álbum, afinal, Pamyu Pamyu não é a rainha dos CVs a toa: Noriko to Norio foi usada pela au (a Vivo japonesa), enquanto que Kura Kura foi usada para vender frango frito na KFC. Noriko to Norio parece tema de desenho infantil, mas done right (nada daquela merda de Mirai No Museum). Ela começa parecendo cantiga de roda e acaba com uns dubsteps em meio ao canto das crianças só pelo choque. É sério. Kura Kura por sua vez é MALÉVOLA. O entoar repetitivo de “kura kura kura kura” é de embrulhar o estômago. Tim Burton adoraria esse negócio.

Já no final do álbum temos Furisodeshon, o single mais fraco dos que integram o álbum. Sem o clipe com Kyaryzão caindo de bêbada e fumando uns beck a música perde muito de sua força. Otona na Kodomo por sua vez é uma faixa mais descontraída e que serve muito bem de conclusão para o álbum. Ela é mais calma e sem mudanças exageradas de tempo ou breaks malucos… mas após onze faixas de pura insanidade, o ouvinte fez por merecer uma música tão calma e gostosa (e que obviamente Nakata reciclou em Sleeping Beauty do Perfume, mas não tem problema, ambas são ótimas).

No geral, Nanda Collection vai além do bom j-pop. Ele é algo mais. Kyary e Nakata pegam o bom humor, a animação e o kawaii que caracterizam os idols e exageram tanto na dose que todo o excesso fica quase insuportável.  E isso é parte da força do álbum. Ele é calculadamente caótico, toda a loucura é proposital. Nanda Collection é uma bagunça que atira pra todos os lados, mas seus criadores estão cientes disso. E é exatamente por isso que ele funciona. Não é uma ouvida pra todo mundo, mas independentemente de seu gosto, essa delícia é digna de reconhecimento. @__@

DESTAQUES: Mi (Kyary ceifou a peruca de todo o Japão nessa aqui, recognize it), Invader Invader, Fashion Monster, Ninja Re Bang Bang, Kura Kura, Otona Na Kodomo.

MEIA BOCA: Kimi Ni 100 Percent é bem dispensável, mas não chega a machucar o álbum.

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24 comentários em “ALBUM REVIEW: Kyary Pamyu Pamyu – Nanda Collection

  1. Você podia ter resumido: melhor que Pamyu Pamyu Revolution.

    _M.E.N.T.I.R.A_(verdade): aquele álbum não foi feito pelo Nakata. Pelo menos não parece. Se houver um incêndio, prefiro salvar A Year Without Rain da Selena que aquele álbum (claro que salvaria meus objetos de adoração e macumba no lugar dos cds todos, mas isso não vem ao caso). O porém é que a _capa_ e o _nome_ são espetaculares. WHY NAKATA WHY. Isso que dá criar três cocotas ao mesmo tempo e ter que lançar coisa nova toda semana.

    Desse cd, sinceramente, só jogo fora Kimi ni 100% mesmo. Isso porque a outra 100% é bem melhor que essa. Muitíssimo. E eu acho bonitinha justamente pela música ter um triplo sentido, quase um término de namoro. Do resto, amoamoamo. Noriko to Norio, mesmo com o ódio multinacional, é, de longe, minha faixa favorita. Talvez porque a Kyary imita uma velha. Talvez por causa do Bro Step (na verdade detesto Dubstep, mas essa música, mesmo sendo completamente limitada, tem seu charme). Talvez porque… Não sei, porque eu sou idiota mesmo.

    Por demais, queria que ela fizesse mais coisas assim. Pelo menos, da próxima, fizesse algo mais Level 3 (com isso digo: mais músicas novas, menos reciclagem de single). Sem desmerecer (embora a comparação com Perfume não seja lá grandes coisas).

    Quando conheci a Kyary, ela tinha lançado o Ghibli Set. Não dei muita importância. Só fui merecê-la depois de muito tempo e… Longa história, vou encurtar (embora dê um livro, já que tem uma conexão com todas as fubecas do Nakata ao mesmo tempo). (…) Prosseguindo: ela continua não sendo grandes coisas, mas não sei se é pelo pai dela ter tentado matá-la umas quatro vezes (e mesmo assim tendo aparecido gatissimamente no “Dorminhoca cujo despertador apareceu no sonho de tão introspecto que estava seu cansaço”), ou pela sua vida sofrida, ou porque eu disse que ela dominaria o mundo em 2013~2014, e, desde então, até o feijão tropeiro _Kátia Pereira_ decidiu usufruir da sua gravidade própria, algo muito suspeito nela me encanta. E por isso eu gostaria que ela bugasse o mundo e *virasse uma dessas divas que tampica celulares e outros periféricos nas castas inferiores*.

    Aí sim. Porque a família brasileira gosta.

    Com beijinhos (e necessidade de um tratamento para encurtar textos),

    Liz M. ~Papricolina~

      1. Como se ela pudesse falar, né, já que ela começou a carreira dela vestindo maiô com um destaque maçônico pra perseguida.

        _(fora os boatos de Osaka que nem preciso citar, né)_

  2. Sim, ela pode falar o que quiser e bem entender, até porque ela não ”começou a carreira dela vestindo maiô”, ela SEMPRE QUIS SER MODELO, então a mãe da Kyary decidiu dar um photoshoot de presente pra filha, e deu no que deu. Aliás, a Kyary ainda nem era Kyary, era Kiriko.

    Após ANOS a Kyary começou a chamar a atenção do povo na rua, e começou sua carreira como modelo, ai a avex contratou ela (Kyary tem duas músicas com a avex, ”Love Berry” e ”Miracle Orange”), e depois se encontro com Nakata e ai surgiu ”PONPONPON”.

    A Kyary nunca fingiu ser uma menina inocente (Como as idols), todos sabem que a Kyary é um demônio, é só dar uma olhadinha rápida no twitter dela, tem foto dela quase pelada de pijama, ela bebada dando uns pegas em outras modelos, as ~festinhas secretas~ dela com a Acchan (Sim, a Kyary é amiga dela) e ela já até contou detalhadamente sobre o dia que ela quebrou a cama dela com o Satoshi (Vocalista do SEKAI NO OWARI e noivo dela) enquanto eles faziam ‘coisas de adulto’ e ouviam a demo de Ninjari Bang Bang.

    A Kyary não é fabricada e não esconde nada do público, muito menos de seus fans, ela quer que todos saibam quem ela é de verdade.

    1. Bem, mesmo com a história e politica toda dela, ninguém vai saber quem ela é de fato. O próprio Nakata acha que ela não é 100% fiel a ele.

      De qualquer modo, ela é putona mesmo, todos sabemos, só que dar uma declaração daquelas só vai contra o que ela mesma afirma. Pode não ser considerado hipócrita, mas é, no mínimo, irônico.

      E também, a Mãe dela fazia o escarcéu todo por causa de peruquinha. Meio suspeito não dar um cujo clitóris da guria tá em alta resolução.

      Ainda gosto dela, quanto mais puta melhor (e volto a citar: por isso adoro Serebro), mas não estou a malhando por isso, só disse que havia uma contradição. Quanto aos boatos de Osaka, é que ela teve um caso com um magnata de lá. Ela era menor de idade, ele era casado, Nakata abafou o caso. Simples.

      1. A Kyary já disse no twitter (Twitter da Kyary>>>Entrevistas da Kyary) que não é 100% ‘fiel’ ao Nakata, porque ele se preucupa muito com ela (Ele obriga ela a comer direito, reclama das roupas que ela usa e blábláblá) e que toparia trabalhar com outros produtores novamente.

        E o ”Caso” dela com o magnata é uma história tão mal contada que nunca saberemos se é verdade ou mentira, vindo da Kyary tudo é possível desde que ela começou a criar uma enguia como animalzinho de estimação lol.

  3. Por isso eu disse que é um boato. No mais, há mais do que sabemos. Há, por exemplo, rivalidade entre Toshiko e Kyary, que posam juntas e tudo mais, mas vivem disputando a atenção do Nakata (Kyary vence).

    De qualquer forma, obrigada pela explicação. Entendi muito sobre muita coisa. Parabéns.

    weeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee/

    1. Nossa, nesse boato de rivalidade de Toshiko/Kyary com Kyary vencendo eu até acredito, principalmente depois de Toshiko ter sido eclipsadíssima no CAPSLOCK inteiro. Sério, não tem sequer uma frase compreensível dela naquele álbum, tadinha. @__@

      1. Nakata worshipa a Kyary, pois, quotando: “Eu queria ser a Kyary”. A melhor ilustração disso é aquela foto deles com a mesma roupa.

        {} Não sei se importa, mas conhece um tumblr chamado Fuck Yeah YSTK?, tem muita coisa do Nakata lá, principalmente entrevistas (aí conecta todo mundo, desde Pamyucôna a Moniconinha. {}

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