Tzuyu, nacionalismo, relações internacionais e k-pop: algumas merdas que você precisa saber

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Como todos vocês já devem saber, uma verdadeira tempestade de merda tomou conta do Leste Asiático nos últimos dias, quando Tzuyu, a taiwanesa de 16 anos do TWICE, foi usada de bode expiatório por uma celebridade pró-China. Tudo começou quando o cantor Huang An atacou Tzuyu pelo Weibo pela garota ter balançado uma bandeirinha de Taiwan num programa de variedades coreano (algo que ocorreu meses atrás e curiosamente só ganhou os holofotes agora), alegando que ela seria uma ativista separatista:

a terrorista separatista mirim em ação

As ações dele provavelmente tinham como intenção inflamar sentimentos nacionalistas no continente por conta das iminentes eleições taiwanesas (que aconteceram nesse sábado e elegeram Tsai Ing Wen da oposição como presidente). A caça às bruxas em cima de Tzuyu foi rápida e efetiva, propagandas dela com a LG foram tiradas do ar, todas as atividades de TWICE na China foram paralizadas e até outras celebridades da JYP na China também foram afetadas, num efeito bola de neve. Tudo isso eclodiu num vídeo de Tzuyu pedindo perdão por sua nefasta ação de segurar uma bandeirinha, proclamando existir somente uma China:

Vídeo postado, a tensão saiu de cima de Tzuyu e foi parar em cima da JYP, ao menos entre os fãs ocidentais. Muitos agora estão atacando a JYP por ser malvada e só pensar em dinheiro, e enquanto dinheiro é definitivamente um fator aqui, ele não é o único. Eu não iria me dar ao trabalho de comentar nada sobre essa lambança toda, mas como isso cresceu a ponto de se tornar um evento internacional digno de um extenso artigo no WASHINGTON FUCKING POST, eu me sinto na obrigação de falar sobre. Hora da aulinha de História, galera.

Vamos começar apresentando esses dois mapas do leste asiático:

MAPA 1

MAPA 2

“Bruno, eles são a mesma merda”, você me diz. Bem, não são não. O primeiro mapa coloca Taiwan como sendo parte da China e não um estado independente ao dar para ambos a mesma cor (notem como o segundo não faz isso), o que definitivamente faria um taiwanês ponderado rolar os olhos (e um mais nacionalista espumar de raiva). O segundo mapa além de emputecer nacionalistas chineses por ter Taiwan separado da China, também irritaria nacionalistas coreanos, por se utilizar do termo “Mar do Japão” ao invés de “Mar do Leste”. Então dois mapas aparentemente inofensivos que eu peguei no google imagens em trinta segundos seriam o suficiente pra gente na Ásia ficar irada, brigar online e fazer textão no facebook (ou weibo) por horas. Se a sua reação é mais ou menos a de Nocchi ao ter que ser kawaii com kyary, eu entendo totalmente.

oh wow

Mas por que toda essa bobagem de mapas parece não passar de uma pequena picuinha pra nós e pras pessoas residentes no leste asiático se trata de algo sério? Bem, talvez porque somos de um país relativamente novo e imperialista (não esteja sob a impressão de que o Brasil é um inocente anjo de luz feito as minas do Stellar porque não é não, somos exportadores de cultura e impomos nossos produtos culturais em cima de toda a comunidade lusófona e dos nossos vizinhos latinos, e ainda temos uma longa e sangrenta história de expansão territorial e esmagamento de ameaças à integridade nacional igualzinha a dos EUA, que adoramos criticar). Então tentem colocar em suspensão suas próprias crenças e o papel ínfimo de nossa história em nossa política internacional e leiam alguns dos fatos a seguir de mente aberta.

1. A História do Leste Asiático

(ou: Por Que Todos se Odeiam no Leste Asiático)

Uma interpretação mais simplista pro motivo do ódio mútuo na Ásia seria o fato de todas essas pessoas estarem se matando há milênios (por sinal, se existe um ou dois de vocês que são aficionados por história militar feito eu, esqueçam os fan favorites básicos feito a França Napoleônica e a Macedônia de Alexandre, a rainha do pop mesmo é o estado coreano de Silla, que safadamente se aliou a todos os seus vizinhos, só pra traí-los logo em seguida, com isso estendendo sua existência por quase um milênio. Sério, Baekje foi traído duas vezes pela delícia. @_@). Mas mesmo assim vou tentar fazer umas abordagens panorâmicas um pouco mais aprofundadas sem deixar de ser pontual, pra não queimar doze laudas em cada tópico, sendo que estamos num blog de k-pop:

1. COREIA VS. JAPÃO: essa é óbvia, dando até pra ignorar guerras de séculos atrás. O Japão invadiu a Coreia e a tornou colônia de 1910 a 1945, forçando sua língua, costumes e história sobre a nação vizinha. Durante o período colonial, os japoneses reescreveram a história coreana a partir de evidências ralas e tremendamente convenientes para o Japão Imperial. Nelas, a Coreia começou como uma colônia chinesa e sempre esteve atrasada culturalmente em relação a China/Japão. Portanto, seria da responsabilidade do Japão-oppa botar a Coreia nos trilhos. E por botar nos trilhos, eu digo invadir a Coreia pra ter um pézinho no continente e chegar nas riquezas da Manchúria, claro.

2. JAPÃO X CHINA: outra óbvia. Chineses foram invadidos pelo Japão após tomarem um sarrafo deles na virada do século XIX pro XX e depois durante a segunda guerra mundial. Fosse eu chinês, também não morreria de amores pelo Japão, mesmo Namie Amuro-hime sendo deus.

3. COREIA VS. CHINA: essa aqui é menos óbvia e tremendamente interessante. Chineses e coreanos depois de se estapearem por milênios deixaram o ranço pra trás no século XIV e a China virou oppa da Coreia, com a dinastia Joseon mandando presentes pra dinastia-senpai chinesa que estivesse no poder da vez (dinastias chinesas rodavam mais rápido que o histórico de integrantes das 9MUSES, sério). E até o começo do século XXI o relacionamento entre ambos os países se manteve relativamente estável. Tudo começou a mudar quando a China em suas pretensões de “nação multi-étnica” lançou o Projeto Nordeste da Acadêmia de Ciências Sociais em 2004. “e que porra é essa e porque ela irritou os coreanos?”, você me pergunta. Bem…. esse é um mapa representando as etnias presentes dentro do território chinês:

isso é um mapa simplificado ainda por cima, tem muito mais

Como vocês podem ver, nem metade do território é ocupado pela população etnicamente chinesa, então integridade territorial é uma grande preocupação do governo chinês (por isso deles não liberarem o Tibet mesmo você achando isso uma ideia linda por simpatizar com o budismo, se a China abrir as pernas pra uma minoria vai acabar tendo que abrir pra todo mundo em efeito cascata e daí o país desmonta). Enfim, voltando ao Projeto Nordeste: a China mudou seu discurso de “a etnia han chinesa é a China” para “todos somos China=^.^=”, e nisso começou a apropriar a história de vários reinos coreanos que habitaram no passado o que hoje é o território chinês da Manchúria, começando a tratá-los como história chinesa. Claro que a Coreia espumou de raiva e uma certa animosidade começou a partir daí (e antes que você fique indignado, a história do Brasil também é territorial e em termos gerais faz a mesma fucking coisa).

4. TAIWAN VS. CHINA: se tivesse um tiozão no continente matando a todos que se opõem ao seu regime, você também iria pular fora e proclamar independência caso estivesse numa ilha a uma distância relativamente segura dele, não?

—–

Todos esses dramas passados serem carregados até o presente pode parecer absurdo pra você, mas lembre-se: não temos ranço nenhum de guerra alguma, porque nosso último combate (fora umas tropas com meia dúzia de manos enviadas na segunda guerra) foi cento e cinquenta anos atrás quando chamamos todo o bonde pra descer o cacete no Paraguai. Ou seja, NÓS GANHAMOS A DELÍCIA, então claro que não vamos entender esse sentimento muito bem. Mas ele está lá e se faz presente, e o que pra nós é coisa pequena, pra um nacionalista de qualquer nação asiática é algo com uma carga muito maior. Então o que nos resta fazer? Aceitar calmamente feito KARA aceitou YoungJi e torcer pro negócio não crescer muito e que muitas pessoas não tomem no cu injustamente.

Por exemplo, só o fato de eu ter dito “a taiwanesa de 16 anos” no começo do post já demonstra que eu reconheço Taiwan como um estado independente. Logo, o tal do Huang An loucaço que jogou Tzuyu embaixo do ônibus já teria um enorme problema com minha colocação. Sacam? Então antes de irem no onehallyu postar em inglês, meçam suas palavras, parça, ou vocês podem acabar mexendo num vespeiro muito maior do que vocês e pior: um que vocês não entendem direito. Sejam precavidos.

2. O Surgimento do K-pop e Economia Sul-Coreana

Enfim, vamos fazer um parenteses rápido na pauta principal pra falar um pouco de coisa boa: top therm

K-pop. Todos vocês sabem que os grupos idols do k-pop são extremamente manufaturados. O que vocês talvez não saibam é que a própria existência do k-pop não tem nada de natural e seu nascimento não foi orgânico de maneira alguma. Quando o Império Japonês ruiu e foi todo mundo escorraçado da Coreia, entrou em vigor uma lei que restringia importações culturais japonesas pra dentro da Coreia. Afinal, os coreanos estavam em survival mode tentando garantir que sua identidade cultural continuasse intacta após décadas de influência japonesa.

Antes da Coreia finalmente abolir essa restrição a importados culturais japoneses em 1998, o Ministério da Cultura se preparou para o que seria um verdadeiro massacre da produção nativa por filmes, HQs, música, séries e livros japoneses finalmente entrando no mercado sul-coreano. Numa tentativa de segurar essa onda nipônica, muito dinheiro foi injetado no setor de entretenimento. Como todos vocês bem sabem, a hallyu começou no final dos anos 90/começo dos 2000, e isso não é uma coincidência. A Coreia do Sul se preparou para o que estava por vir e começou a produzir entretenimento feito doida.

boa sorte vendo até o fim

Claro que no começo tudo foi meio que uma bosta, mas pouco a pouco o nível dos produtos cresceu muito e acabou que a Coreia que invadiu o Japão culturalmente (tá que isso já morreu nos dias de hoje, mas em 2010 tavam os japas tudo rebolando o cu ao som de Mister). A Coreia mecanizou a produção de cultura de uma maneira que nem os EUA fizeram, porque o próprio governo investe pesado nisso, subsidiando a produção cultural até 30 vezes mais do que outros países desenvolvidos (senti isso na pele quando vi um fucking calendário de idols de k-pop oficial lançado pela porra do Ministério de Relações Internacionais da Coreia do Sul). O Hallyu aumentou o número de exportações do país, tanto que só em 2012 o hallyu foi um ativo de quase 100 bilhões de dólares pra economia sul-coreana (o PIB deles é de 1,3 trilhão, façam as contas da relevância do hallyu). Isso é dinheiro pra caralho. Vejam a importância do k-pop vindo da própria presidente sul-coreana:

No século XXI, cultura é poder… junto do povo coreano, nós iremos nutrir uma nova renascença cultural e uma cultura que transcenda etnia e línguas, transcenda ideologias e costumes, que contribua para o desenvolvimento pacífico da humanidade, e que esteja conectada a habilidade de compartilharmos alegria.

  • presidente sul-coreana Park Geun-hye

K-Pop é importante pro governo e pra economia coreana, por isso de tantos idols recentemente serem de outras nacionalidades. As empresas coreanas estão tentando deixar seus produtos (grupos idol) mais atraentes para o mercado externo, e estão tentando manter a hallyu crescendo. Os mercados culturais chineses e japoneses são auto suficientes, o coreano não. Eles precisam exportar. E é nessa que os Luhans, Hangengs, Momos e Tzuyus do k-pop surgem. Pronto, agora que vocês tem essa informação sobre como o k-pop é uma fake ass bitch, podemos voltar ao nacionalismo asiático e como o k-pop entra nele.

3. Nacionalismo Coreano, Chinês e Japonês Hoje

Apesar da declaração de marejar os olhos da Park Geun-hye ali em cima, tenham em mente que nem tudo são flores e a Coreia quer sim exportar Nêgatchei Tchálagá e Winter Sonata pros seus vizinhos, mas as estatais coreanas ainda regulam com mão de ferro a influência cultural que vem de fora dentro da Coreia, vide o infame caso de 2014 em que UH-EE do Crayon Pop foi censurada pela KBS por conter a expressão “pika-banjjak” ao invés de “banjjak-banjjak”. No caso, “pika” é brilhinho em japonês, enquanto “banjjak” é brilhinho em coreano. A porra de uma palavra em japonês na letra foi considerada como um ranço do Japão Imperial e a faixa foi banida.

o exato momento em que a soberania coreana foi ameaçada por um brilhinho

E o que rolou por conta desse escândalo? Revolta no Japão e ressurgimento de sentimentos nacionalistas, com comentários que variavam do “argumento inflamado cheio de memes” para “argumento coerente e indignado tentando entender por que japonês não pode e inglês sim”. Algo similar aconteceu alguns anos antes, mas eu não lembro exatamente qual foi o escândalo. Eu só sei que todos os atos coreanos foram tirados do Kouhaku Uta Gassen de 2012 e depois disso as participações de coreanos em programas televisivos japoneses também diminuíram muito. Especula-se que isso teve o dedo do governo japonês, já que a NHK é subsidiada pelo governo. Então vejam como o entretenimento serve de vitrine pro clima político do leste asiático.

Aonde eu quero chegar é: se uma única palavra (brilhinho, não se esqueçam) estremeceu as relações Japão-Coreia, qualquer coisa pode chacoalhar o barco. E coisas similares ocorrem o tempo todo, porque quando o assunto é o leste asiático, todo governo sempre está mais do que pronto pra descer a censura primeiro e abrir diálogo depois (vide o próprio Huang An tosquíssimo achando que corre risco de vida em Taiwan e tendo sua existência banida na ilha). Falando nesse Huang An de novo, porque essa porra de post já está muito longo: por que ele atacou Tzuyu, e por que agora sendo que Tzuyu balançou a bandeirinha de Taiwan meses atrás?

O Wesley Safadão chinês que achou ok arrastar uma adolescente na lama

Oras, porque nesses jogos de poder com influência nacionalista e que usam o entretenimento como vitrine e espelho das relações internacionais, TZUYU é um prêmio grande: derrubando-a se matam dois coelhos com uma única cajadada: ataca-se a independência de Taiwan e ataca-se a influência cultural e comercial coreana na China (exatamente o que aconteceu). O que mais pode querer um nacionalista chinês atacando uma adolescente de uma girlband? Então não se enganem, o senhor Huang An sabia o que estava fazendo e ele sabia que teria público para tal, ele sabia que ânimos se inflamariam, porque é sempre assim que acontece, ainda mais na internet em que todo mundo sempre está disposto a defender o 8 ou 80, vide os internautas internacionais voando na goela do JYP como se ele tivesse escolha no meio de todo esse caos.

JYP foi cagão e deveria se envergonhar de ter permitido uma garota menor de idade se humilhar como ocorreu naquele vídeo? Porra, mas é claro. Mas eu honestamente não me sinto em posição de julgá-lo porque eu não sei o que eu faria na situação dele. Ou na dela. Isso não é só medo de dinheiro perdido, isso é medo de estremecimentos políticos crescerem até ficarem fora do controle e possivelmente resultarem no fim de relações diplomáticas amigáveis e, em casos extremos, até em guerra. Porque não se enganem, isso seria totalmente possível. Quando uma merda dessas acontece na Ásia, todos ficam com o cu na mão. O leste asiático é uma panela de pressão que nunca passou por um período de paz tão longo quanto o atual, e você pode perguntar pra qualquer asiático e ele estará ciente de que uma agulha caindo no chão pode ser o estopim pra todo mundo entrar em guerra e morrer explodido com uma bomba de hidrogênio defeituosa de Kim Jong-un.

E eu não me canso de frisar isso, mas esse não foi um drama comum feito “internautas coreanos putos por IU existir” ou “internautas japoneses chocados porque a mina do AKB48 levou o namorado pra casa”. Esses dramas tinham pretextos sociais, esse drama de Tzuyu teve um pretexto nacionalista-político. E fica a lição: não brinquem com nacionalistas e deixem a poeira baixar, ou o sacrifício da pobre coitada da Tzuyu se expondo pras coisas não escalarem pode acabar sendo em vão. O ALLKPOP é nojento e aproveitador e sempre que rola um drama eles estão a postos pra postar uma mesma matéria em dez partes diferentes pra aumentar seus views. Vejam a capa do allkpop ontem, no meio de todo esse caos:

NEM. UMA. FUCKING. MENÇÃO. AO. DRAMA. DE. TZUYU. Nenhuma. O allkpop achou que “15 coisas que capopeiros fariam se ganhassem na loteria” era uma pauta mais atraente e relevante do que esse circo todo. Isso é porque eles como um site de muita visibilidade não são idiotas e sabem que quando a coisa entra no âmbito das relações internacionais entre países asiáticos, você está pisando em ovos o tempo todo. Claro que todos gostaríamos que China-Japão-Coreia se entendessem, estendessem as mãos e fizessem uma ciranda como se relações internacionais fossem uma promo shot de G-FRIEND,

minha bias era a Tailândia, que saiu do grupo pra focar nos estudos e na carreira de atriz

…mas não é assim que as coisas funcionam hoje e não é assim que elas funcionarão no futuro próximo, porque existe bad blood aí que se baseia na história mútua pregressa desses países. Então entendam: O Japão pode rebolar ao som de Mister, a China pode adorar T-ARA e Taiwan pode achar Namie Amuro diva e rainha do pop, mas existe um limite para a influência cultural de um país no outro, e ninguém vai ceder ou correr o risco de perder sua soberania nacional pra não fazer feio frente a comunidade internacional. Ninguém se importa se o Washington Post rechaçou China, Taiwan e Coreia por terem deixado uma menina se foder no meio do tiroteio, porque pra eles se existia um risco real de estremecimento das relações internacionais, a própria presidente da Coreia ia descer na JYP e botar a tec-pix pra gravar Tzuyu pedindo desculpas pra China. Ninguém quer correr riscos.

E o que vocês podem tirar de tudo isso? É que SOMOS ABENÇOADOS de viver num país tão de boa quanto o Brasil, em que o máximo de tensão política que temos é lidar com colega de trabalho petista xiita de um lado e tia avó coxinha sunita do outro. Imagina se você estivesse na Ásia e seu país pudesse cortar relações diplomáticas com outro porque falaram “brilhinho” numa música ou porque uma menina taiwanesa ousou balançar uma bandeirinha. Assustador, diz aí.

234 comentários em “Tzuyu, nacionalismo, relações internacionais e k-pop: algumas merdas que você precisa saber

  1. Provavelmente o post mais completo que vi sobre o assunto, parabéns Bruno!
    Sobre a polêmica, bem, eu não vejo o porque jogar toda a culpa na JYP, mas que ela foi errada em colocar esta menina para gravar esse vídeo ela foi e muito. Não a culpo 100%, mas acho que tudo isso poderia ter sido evitado pela mesma, e mesmo, eles poderiam ter resolvido de outra forma que não fosse a menina negar suas origens. No final das contas, entendo perfeitamente pessoas que ficaram indignadas com a JYP (até porque fui uma delas) porque existe um ‘choque’ inicial com a situação. Foi errado da parte deles? Claro que foi, mas isso não significa que a culpa é totalmente deles (e obrigada por abrir mais meus olhos para ver isso). É a mesma situação de jogar a culpa no Jackson.

    Mas que me deu vontade de chorar vendo aquele vídeo, deu. A Tzuyu está claramente sendo forçada a fazer aquilo, até porque ela deve estar sentido uma pressão terrível, já que as ações da JYP caíram e tem todo esse povo radical querendo a empresa fora do Japão e tal.

  2. Costumo descrever a história do Leste Asiático assim;

    A China tava lá andando, e do nada resolveram construir uma casinha, e daí outra e outra. Em pouco tempo, viraram uma tal de civilização. E, nas andanças pelo bairro, descobriram a vizinha, Coreia. A Coreia não tinha nada de novo, mas eles eram bem legais e costumavam por a China num pedestal por causa dos brinquedos legais que ela tinha. Daí a Coreia fez amizade com a China pra brincar com os brinquedos dela.
    Um dia, um vizinho novo chegou, e a Coreia logo, curiosa, foi ver esse tal de Japão. Eles não tinham tantos brinquedos legais quanto a China, mas eles eram bons em produzir arroz. E a Coreia gostava de arroz. O que ela fez? Apresentou alguns dos brinquedos legais da China pro Japão e fez amizade. Depois, apresentou o Japão pra China. A China gostava de arroz também e acabou fazendo amizade com o Japão.

    Tudo ia as mil maravilhas. O único problema era: a China era meio mandona. E ela era tipo a popular do grupo. E ninguém podia discordar dela. A Coreia, era submissa demais, e um pouco dissimulada, então ficava ali no muro, pra não irritar ninguém. O Japão por sua vez, aceitou essa personalidade difícil de início, mas aos poucos, começou a ficar chateado. Num certo dia, o Japão quis dar um basta, e tentou atingir a China, batendo na Coreia, que era a melhor amiga dela. Não deu muito certo, então ele foi pro quintal ficar monstrão e voltou. Dessa vez, o Japão brigou feio com a Coreia e bateu bastante nela. Mas a Coreia como era arregona, pediu ajuda da China, e a China foi lá e bateu no Japão que voltou pra casa com olho roxo, e isso fez com que ele ficasse preso em casa por bastante tempo.

    Um certo dia, o Japão recebeu a visita da galera da rua de baixo, chamada de Europa. A galera que morava nessa tal rua Europa, eram bem mais fortes que ele. E eles sabiam bastante coisa. Nisso tudo, o Japão descobriu que um tal de Império Britânico, tinha descido o cacete na China duas vezes. E daí eles pensaram: caramba, esse tal de Império Britânico é da hora, vou ficar amigo deles e me vingar da China.
    De início, o Japão começou a fazer o jogo da Coreia de antes. Era dissimulado, fingia ser amigo de todo mundo e assim ia aprendendo várias coisas. Um dia, depois que a China tava meio doente, ele foi lá e deu uns belos tabefes pra se vingar. Como se não bastasse, ainda chamou os amigos da rua Europa e eles se juntaram pra dar uma surra na China. Todo mundo agora mandava na China, incluindo o Japão.

    Mas o Japão queria mais, ele queria bater na Coreia também, e de quebra, ele queria bater numa galera que num tinha nada a ver com o pato. Assim, mais tarde, ele resolveu se aliar com uma tal de Alemanha, que morava também na rua Europa, e era tão forte quanto os outros que moravam lá. A Alemanha, podia bater nos outros da rua Europa, e isso distrairia eles pro Japão bater nos amiguinhos do Leste Asiático. E daí, aproveitando a ocasião, o Japão começou a bater na China e na Coreia e de quebra deu uma surra em Taiwan, a irmã da China, que não tinha nada a ver com isso. Era muito ódio nesse coração, e por isso ele não queria parar.

    Só que, a Alemanha era forte, mas apenas uma, e uma hora acabou apanhando. Isso fez o Japão se tornar o alvo da galera da tal da rua Europa e de um tal de Estados Unidos que morava no fundão. Eles descobriram que o Japão era amigo da Alemanha, e vieram tomar satisfação. O Japão não gostou e quebrou alguns brinquedos dos Estados Unidos, que resolveu quebrar todos os do Japão. Pra completar, a China que ainda tava toda machucada e com um braço quebrado, aproveitou a deixa e resolveu bater de volta no Japão.

    No final de tudo, eles fizeram as pazes quando todo mundo já tinha apanhado de alguma forma. Mas atente, só ficaram de bem, porque a mãe deles mandou, e não porque queriam. Eles se dão “oi” no colégio, mas não costumam mais ficar juntos no recreio. Exceto o Japão, que desenvolveu a síndrome de Estocolmo e passou a ver o Estados Unidos como o senpai dele, e costuma brigar bastante com a Coreia, que também tem uma quedinha por ele. E pra completar, depois de tanta briga, a irmã da China, Taiwan, ficou com medo de apanhar de novo do Japão sem nem ser culpada, e parou de andar com a irmã.

    1. É um bom resumo, mas nessa versão a Coreia tá meio submissa e sem agência demais, né não? E todo aquele período em que os três reinos batiam de frente com a China, derrubaram Sui e deram constantes dores de cabeça pra Tang? Essa parte ficou pra versão estendida? =p

      1. Se tivéssemos que por todas as aventuras dessa turminha, ainda teriam de vir quanto a China apanhou dos Manchus, Jurchen e Khitan, quando a Coreia e a China apanharam dos Mongóis e o Japão se salvou porque os Mongóis e a água não tinham assim tanta afinidade.

        Mas vamos ser sinceros, a Coreia sempre atacava, com sucesso, as dinastias menos militares. A Sui era uma piada militarmente. Eram dinastias culturais e metidas com ciência.
        Goguryeo deu algumas dores de cabeça, mas no final, eles só conseguiram sucesso mesmo contra a Sui. A única batalha que eles venceram contra a Tang foi com ajuda dos Mogher. Perdendo tanto pra Wei quanto pra Tang em todas as outras, e ainda tendo sido anexada pela Tang.

        Militarmente falando, a Coreia nunca conseguiu ser muito expressiva, e nem o Japão pré-Tempos Modernos.
        Apesar de proporcionalmente a China ter sido bem mais invadida que esses dois, o constante costume dos chineses de fazerem guerra com todo mundo, incluindo com eles mesmos (acho que os chineses passaram mais tempo guerreando entre si que com o povo de fora), acabaram fazendo deles um povo bastante militar e com mais experiência que o Japão e a Coreia. Lembro até que meu professor de história costumava dizer que naquela região, militarmente falando, os únicos povos que tinham tido tantas batalhas quanto os chineses, tinham sido os povos Tungúsicos, principalmente naquela área da Mongólia e Manchúria, o que explica bem o porque a maioria das dinastias não-Han na China foram de povos dessas regiões.

        Mas eu daria um 10 na prova final da Coreia pelos navios-tartaruga, que fizeram os japoneses chorarem de raiva com toda certeza.

        1. “Se tivéssemos que por todas as aventuras dessa turminha, ainda teriam de vir quanto a China apanhou dos Manchus, Jurchen e Khitan, quando a Coreia e a China apanharam dos Mongóis e o Japão se salvou porque os Mongóis e a água não tinham assim tanta afinidade.”

          exatamente, e é esse o grande problema de se narrar a história do leste asiático. Ela sempre foi tremendamente dinâmica, então qualquer recorte que você faça na história de qualquer desses povos acabará excluindo elementos cruciais.

  3. Sei que esse artigo já não é mais recente, mas aqui parece ser o lugar certo pra perguntar: o Asian Mixtape pretende no futuro expandir seus temas pra falar também do pop chinês (…C-Pop? Nem sei como seria a sigla…)?

    Graças a esse blog, aprendi um pouco das peculiaridades do K-Pop (muitas boybands e girlgroups, vários deles com sub-units e concepts… hã… pitorescos) e do J-Pop (terra da gloriosa Hikaru Utada e de bizarrices viciantes como LADYBABY, FEMM e aquelas tias explodindo cerejas) , mas não sei nada sobre o pop na China, se é parecido com o da Coreia, do Japão ou se tem características completamente diferentes.

    1. Depende. Eu costumo separar o pop chinês em dois tipos: o influenciado pelo coreano principalmente, mas um pouco também pelo japonês e o mais “tradicional”. O primeiro, é bem semelhante ao k/j-pop, com algumas peculiaridades (acho que eles têm um conceito mais “sério” ou adulto, não muito jovial/juvenil, mas isso não é regra, tem muitos grupos que verá com conceitos quase iguais a principalmente os coreanos, até mesmo porque tem muitos grupos chineses que contratam empresas coreanas pra fazer os clipes deles, já que pop coreano tá em alta), tem um pequeno grupo de pop chinês que se assemelha mais ao americano que a outros pops asiáticos, mas são minoria, e normalmente são artistas de Hong Kong, que é uma parte mais “ocidentalizada” da China.
      Já o segundo tipo de pop, é bem mais comum, e até mesmo grupos/artistas que fazem o pop mais “coreano” acabam uma hora cedendo e fazendo músicas mais “pop chinês”. Esse pop mais de raiz, é normalmente mais poético ou prosaico, cheio de letras sobre romance, família, amigos, promessas; lembram bastante séries dramáticas asiáticas. Normalmente têm um passo mais calmo e relaxado, e é comum ver instrumentos tradicionais chineses como erhu, guqin ou guzheng fazendo parte da melodia junto a instrumentos mais modernos. Esse tipo de pop é bem, bem característico da China, nunca vi nada parecido no Japão ou na Coreia, se ouvir um ou outro, identificará rapidamente quando ver um na próxima vez. É particularmente o meu preferido.

      Alguns artistas chineses que gosto são: Christine Fan, JJ Lin, Hu Xia, Jane Zhang, Wang Leehom, By2, Khalil Fong e Jay Chou.
      Grupos existem, mas eles são normalmente mais incomuns, alguns que lembro de cabeça, apesar de não ouvir muito são: NGirls, PopuLady, Lollipop F (que apesar do nome é uma boyband), Seven Sense…só lembro desses.

      Ai há grupos chineses, taiwaneses e honcongueses, mas, como tudo canta em chinês (ninguém liga pros dialetos chineses além dos outros chineses que não falam mandarim, imagina nós “ocidentais sem cultura”), então não especifiquei de qual lugar é cada. Até mesmo porque isso poderia fazer com que me obrigassem a pedir desculpa.

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