ALBUM REVIEW: IU – Palette

IU é uma das estrelas mais fascinantes de todo o k-pop. De idol manufaturada a dona de si, IU desabrochou e amadureceu como artista como poucos atos conseguem fazer numa cena tão sufocante e controladora quanto a cena pop coreana. IU muito cedo em sua carreira ganhou o título de “a irmãzinha da Coreia”, um rótulo que a colocou dentro de uma caixa e colocou nela expectativas irreais para qualquer adolescente alcançar. Por conta disso, toda e qualquer decisão privada sua sempre acabava se tornando pública e alcançava proporções absurdas. Fosse um namorado, fosse suas amizades, fosse alguma declaração de que o público não gostava, tudo servia (e ainda serve) de pretexto para IU ser atacada por haters que não a achavam merecedora do título de “irmãzinha”, seja por acharem-na hipócrita por ter uma vida e não incorporar o título por completo, seja por aqueles que gostavam da fantasia da irmãzinha e se sentiram traídos quando IU se voltou contra isso. Todo esse hate culminou em Chat-Shire, de 2015, um trabalho controverso e que absolutamente marcou a carreira dela. Agora, dois anos depois (uma eternidade para o k-pop), IU está de volta com seu quarto LP, Palette. Será que as consequências de Chat-Shire ainda podem ser sentidas nesse novo trabalho? O que IU tem a dizer agora?

Chat-Shire havia sido o trabalho mais pessoal de IU até aquele momento, e também o trabalho em que ela teve mais controle criativo até então. IU finalmente havia tomado as rédeas de sua carreira, e por conta disso tinha muito a dizer. Especificamente, ela se encontrava extremamente descontente com sua persona idol e seu título de irmãzinha. Já uma mulher adulta (ela tinha 21 anos “23 anos” no fim das contas!), ela foi capaz de ver através do verniz de sua própria imagem manufaturada, e isso resultou em revolta. IU notou como ela era um produto juvenil sexualizado e se rebelou contra isso de maneira extremamente insolente e debochada em “Twenty-Three“, escancarando a hipocrisia de quem consumia “IU, o produto”.

Claro que isso deixou MUITA GENTE desconfortável, afinal, ninguém quer ter um dedo julgador apontado pra suas fuças. A revolta foi implacável e IU foi atacada incessantemente em vários âmbitos: acusaram-na de plagiar Britney Spears, acusaram-na de ter um complexo de lolita, de ser pedófila… de tudo o que você possa imaginar. O mais surpreendente é que IU lidou com isso de maneira muito mais badass do que qualquer  pretensamente declarada mina-fodona-do-hipehope que temos no k-pop: ela não abaixou a cabeça e defendeu seu trabalho até o fim. Após esse 2015 extremamente escandalizante, IU sumiu dos holofotes idols e se focou na carreira de atriz por todo 2016, não lançando sequer um single digital nesse meio tempo. E enquanto isso não é nada demais no ocidente, é uma vida inteira na cena veloz capopeira. Mas eis que em 2017 IU finalmente voltou do limbo. Mas essa definitivamente não é a mesma IU de outrora, nem mesmo a de Chat-Shire. Após a revolta do EP de 2015, IU volta agora mais calma, relaxada e descansada, também fazendo as pazes com sua própria imagem anterior de princesinha teen (“eu prefiro meu cabelo curto, mas eu não estava linda com ele comprido em Good Day?”). A faixa título, Palette, encapsula isso perfeitamente.

Palette é evidentemente uma sequência de Twenty-Three, ao menos no que diz respeito à letra. Enquanto a faixa anterior era muito mais vibrante e provocativa em temática, trazendo IU mais debochada do que nunca, Palette a traz mais descompromissada e segura de si. IU se descobriu e se sente mais confortável como adulta do que em Twenty-Three, e por mais que muita gente ainda odeie ela, IU não se afeta mais com isso (“I got this! I’m truly fine”). A letra mostra essa agência e segurança de maneira extremamente simples: IU lista aquilo que ela gosta e não gosta, e enquanto isso pode parecer simplório, se considerarmos que idols não devem ter gostos ou opiniões próprias, listar suas preferências é uma maneira de atestar sua individualidade, por mais banais que essas preferências possam parecer (prefiro roxo a rosa, cabelo curto a comprido, etc).

Com uma proposta descompromissada dessas, um número leve de dream pop/synth pop retrô faz bastante sentido (Ah, G-Dragon tem uma participação tão breve que sua presença praticamente não faz diferença, apesar da mensagem motivadora dele pra ela ser bonitinha). O que eu acho interessante sobre Palette é que meu apreço pela música se deve principalmente ao fato dela ser um single de IU. Se isso fosse uma faixa do Station cantada por alguma Red Velvet ou um feat de DEAN com Suran, eu acharia Palette uma porcaria. O fato de ser IU cantando a faixa dá peso e significado pra Palette, e é por isso que eu gostei dela. É mais ou menos o que ocorreu com alguns dos singles do Fantôme, por exemplo. Coisas como Hanataba Wo Kimi Ni só funcionam por estarem saindo da boca de Utada, ser ela cantando aquelas músicas dá peso, contexto e significado pras letras, e o mesmo ocorre com IU em Palette. E eu honestamente não consigo pensar num elogio maior pra uma solista asiática do que uma comparação com Utada. Mas é verdade. IU de certa maneira está se tornando a Utada coreana.

Lead single explorado, vamos falar do resto do álbum como um todo: IU ficou conhecida por uma imagem de fantasia e sonho que agora é jogada pela janela, dando lugar a um look mais contemporâneo. A mesma coisa ocorre com seu som. Ela, que sempre foi conhecida por um som retrô, seja orquestral seja de swing, já havia deixado o estilo meio de lado em Chat-Shire e agora ela definitivamente o abandona de vez. A pegada retrô se faz presente apenas na faixa introdutória, THIS RIGHT NOW, que faz o link entre o som passado dela e o presente muito bem, ainda mais que a faixa seguinte é Palette. Uma boa jogada. E uma intro bonitinha ainda por cima.

Entretanto, o destaque absoluto do álbum é definitivamente Jam Jam, que traz IU fazendo pop, mais segura de sua sexualidade do que nunca, numa letra irônica e imunda cheia de duplo sentido, que criminalmente não virou single porque pelo visto a LOEN não queria arriscar demais com a imagem dela. Black Out seria outra boa aposta de single, trazendo IU num número de pop rock em que ela está absolutamente bêbada enquanto tenta convencer o ouvinte de que ela está verdadeiramente de boas. Ambas as faixas trazem uma IU mais madura, e definitivamente são representativas do clima do álbum ao lado do lead single.

Can’t Love You Anymore, que de fato foi single, também desce redondo, sendo um R&B inofensivo e que não ofende. Oh Hyuk funciona muito melhor em seu feat do que G-Dragon, visto que ele de fato tem algo pra fazer durante a faixa inteira ao invés de cantar quatro versos na bridge. E o clipe extremamente irônico e aesthetic é ultra icônico, já fez valer o lançamento como single só nisso.

As outras cinco faixas do álbum? São todas baladas. TODAS. E infelizmente nem todas funcionam. Ending Scene e Through The Night são chatas e ponto, Full Stop e principalmente Dear Name são melhores, mas são genéricas em sua temática de fim de relacionamento e não passam de OSTs de dorama glorificadas. Das baladas, And So Love Is é o grande destaque, tendo melodias lindas e um instrumental acústico que faz com que a faixa soe como uma canção de ninar trágica.

O fato de quatro das cinco baladas fecharem o álbum é um desfavor pra todas as faixas e também para o álbum em si. Eu sei que é isso que os coreanos gostam de ouvir (e IU/LOEN também estão cientes disso, lançando duas dessas faixas como singles), mas algumas dessas baladas são simplesmente desnecessárias e fazem o álbum se arrastar e perder variedade sonora. Ending Scene e Through The Night poderiam ter ficado no chão de edição seguramente sem perda alguma pro clima de Palette, que seria mais forte como um EP do que como um álbum completo só por estar atochado de baladas que ajudam a tracklist a bater 30min e portanto oficialmente constituir um LP.

Palette acerta na proposta e deixa clara a ideia de que IU agora é uma mulher formada, que já passou pela sua fase de rebeldia e revolta e agora tem total domínio de si, mas ainda assim soa como um trabalho inacabado. Faixas como Palette, Jam Jam, Black Out e And So Love Is soam genuínas e autorais, mas algumas outras soam impessoais e descartáveis. Palette é imperfeito, mas triunfa ao libertar IU da imagem idol de vez, dando para ela a liberdade de cantar o que quiser daqui em diante. E isso é bastante empolgante, visto que ela é de longe a solista coreana mais cativante da atualidade. Com sorte, o futuro reserva um trabalho mais completo e melhor realizado vindo dela quando IU tiver 27 anos. Quem sabe?

Anúncios

171 comentários em “ALBUM REVIEW: IU – Palette

  1. De 2 posts que eu li nesse blog nem fala nada que presta, vc tem um blog para ficar falando mal dos outros eu nao sou fanatico por idols . mais vc falar que Through The Night e chata e a musica mais perfeito do album, vc ta precisando ouvir musicas de qualidades antes de da sua opinao musical, por que de musica vc nao entendi nada isso eu posso ve claramente, nos ainda temos sorte de conseguir ouvir musicas de qualidades graças a Coreia, pq as musicas atuais do Brasil eu nao preciso nem comentar ne.

COMENTÁRIOS:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s